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  • Marcos Villanova

Um hebdomadário de priscas eras


Em 1969, eu morava ainda na casa de meus pais, em Curitiba, na rua Lamenha Lins, entre a Av. Sete de Setembro e a Silva Jardim. Do outro lado da rua, quase na esquina com a Sete, havia uma pequena banca de revistas. Foi nessa banca que comprei – por mera casualidade – o meu primeiro exemplar de O Pasquim.


Pra quem não sabe, o Pasquim foi um semanário criado por jornalistas, humoristas e artistas gráficos, todos moradores do Rio de Janeiro, que se transformou – contra as expectativas dos próprios criadores – num fenômeno editorial, chegando a vender, nas bancas, inacreditáveis duzentos mil exemplares por semana. Num tempo em que não havia internet, era uma dádiva poder acessar, através das páginas d’O Pasquim, os textos de Paulo Francis, Ivan Lessa, Luis Carlos Maciel, Sérgio Augusto, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes e os cartuns de Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Henfil & cia, tratando, com irreverência e linguagem coloquial inéditas na imprensa brasileira, de toda a efervescência comportamental e política que o Brasil e o mundo viviam nos final dos loucos anos 60.


Desde o primeiro número (Ibrahim Sued) as entrevistas foram peças de resistência de cada edição. Jânio Quadros, Don Helder Câmara, Pelé, Glauber Rocha, Leila Diniz, Tom Jobim, Madame Satã, entre centenas de outras personalidades das cenas artística, política e esportiva nacional foram entrevistados, quase sempre – entrevistados e entrevistadores – caindo de bêbados.


Viviamos os obscuros tempos do AI-5, a censura infernizava, mas ainda não havia nascido o “politicamente correto” e, ao ser entrevistado, o vetusto e venerável líder comunista Luis Carlos Prestes ouviu, pasmo, Tarso de Castro lhe perguntar: “O Sr. já entubou?”.


Mas o Pasquim não era apenas o mais debochado, irreverente e inteligente veículo do país: lançado poucos meses depois da edição, em dezembro de 1968, do AI-5, o jornalzinho assumiu uma corajosa postura, criticando os desmandos da ditadura militar. Não demorou muito para que sofresse as consequências, primeiro com a censura proibindo a publicação de artigos e até de cartuns, e culminando com a prisão, em 31 de outubro de 1970, de seus principais colaboradores, por mais de dois meses.


Durante este período, por maiores que tenham sido os esforços dos que não foram presos e de muitos amigos que se solidarizaram para manter a circulação do jornal, sua qualidade e tiragem nunca mais foram as mesmas.

Nos anos seguinte outros problemas surgiram, como crise financeira (digamos que capacidade administrativa não era um dos talentos daquela rapaziada) e divergências pessoais e políticas. Apesar dos pesares, o Pasquim foi sobrevivendo até ser vendido, em 1988, para um empresário que garantiu sua sobrevida até janeiro de1991, quando foi publicada a última edição.

Entre 1969 e 1975, pouco mais, pouco menos, O Pasquim pautava as conversas da rapaziada descolada de minha geração. Anos depois, quando, decadente, fechou as portas, de certa forma levou junto com ele uma era em que acreditávamos que, com o fim do golpe militar, resolveríamos todos os problemas do Brasil.

Não poderíamos estar mais enganados.

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