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  • Roberto Muggiati

Shakespeare foi um tremendo comuna!



No inverno de 1962, o comando supremo do CPC acampou em Curitiba. Para os que não são daquela época, explico: os CPCs, Centros Populares de Cultura, eram células ideológicas do movimento estudantil destinadas a conquistar adeptos para a iminente revolução de esquerda. Explico mais: o Presidente da República, Jango Goulart, o vice que assumiu – não sem forte resistência da direita – após a renúncia de Jânio Quadros em 1961, era simpático à causa,


A efervescência política era total. Cuba demonstrara, no primeiro dia de 1959, que a revolução comunista na América Latina era possível, sim. Nossa ingênua “esquerda escocesa” – não abria mão de um bom uísque – só não levou a sério a classe média cagona (já podemos dizer palavrões, não?) que, receosa de perder as riquezas que não possuía, praticamente empurrou os militares para a “revolução”, conspurcando o sacro nome. Mas em 1962 a esquerda brasileira vivia o sonho e a euforia da vitória próxima.


Fazia frio naquele inverno em Curitiba. O CPC se ocupava de esquentar o clima, discutindo principalmente teatro. O famoso Gianni Ratto estava lá conduzindo um laboratório – viera do Rio conduzindo seu fabuloso carrão britânico, uma Bentley. Um dos líderes mais ativos dos CPCs, o ator Joel Barcelos, me convocou para uma entrevista. Comandava as ações de um escritório num dos andares altos do prédio do Clube Curitibano, na Barão do Rio Branco, cedido por um advogado que jogava já todas suas fichas na esquerda.


– Muggiati, ouvi falar de você. É o homem certo para uma palestra sobre Shakespeare. Um autor comunista, não? É só ler suas peças...


E lá fui eu cumprir aquela missão, que não chegava a ser espinhosa nem absurda. Além do mais, eu também não tinha a menor dúvida de que o Bardo era um tremendo comuna.


No dia aprazado, desloquei-me até o inacabado Teatro Guaíra, era uma carcaça monumental. Só Curitiba mesmo: não havia Fantasma da Ópera, só a Ópera Fantasma, queimada num incêndio em 1970 e só inaugurada em 1974. Num canto aos fundos do palco, numa mesa redonda cercada por cinco ou seis cadeiras, acolhi as duas aventureiras solidárias que compareceram à palestra, Ileana Kwasinski e Leila Santiago de Oliveira – duas flores da sociedade curitibana em processo de decomposição marxista.


Citando trechos dos Henriques e dos Ricardos, de Macbeth e do Mercador de Veneza – eis aí uma peça que antecipa Das Kapital ... – acho que convenci as moças. Nem precisava ter me esforçado tanto.


Ileana Kwasinski seguiu em frente e se tornou importante atriz de cinema e TV no eixo Rio-São Paulo, pena que morreu cedo, aos 54 anos. Quanto a Leila Santiago de Oliveira, nunca mais soube dela. Lembro nosso insólito namoro adolescente num baile de Carnaval do Iate Clube de Guaratuba, início dos anos 50, aromas de Rodo Metálica. Leila, quanta saudade! Um beijinho. E não esqueça a lição: Shakespeare foi mesmo um puto comuna!


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