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  • Roberto Muggiati

Seu pai sabe sempre por onde você anda na madrugada



Eu não podia dizer que agia em surdina na calada da noite, ao contrário: o barulho que eu fazia, amigos brancaleones!


Foi bebememorando meus dezoito anos no La Ronde que decidi finalmente tocar saxofone. Perguntei aos músicos do conjunto da boate se conheciam um professor. “Tem o Altevir, no terceiro andar deste prédio, mas ele toca trompete...”


Pelo reembolso postal encomendei um saxofone tenor fabricado em São Paulo – um legítimo Ubaldo T. Abreu, que levou seis meses para chegar. Enquanto isso eu fazia aulas de divisão pelo Método Bona com o Altevir. Meio ano de solfejos: Dó-dó, ré-ré, mi-mi. fá-fá...


O Altevir era um mulato de estatura mediana, amplas entradas nos cabelos glostorados, elegante em seus ternos marrons de risca de giz larga – parecia ter saído do naipe de trompetes da big band de um Jimmie Lunceford ou de Duke Ellington.


Com a chegada do instrumento – uma verdadeira carroça, problemas de palheta e eu buscando obsessivamente aquele som cool letárgico do velho Prez  – progredi razoavelmente, tocando duetos com o Altevir.


Uma noite ele me convoca – onze de agosto – para tocar num baile na pista da Associação dos Servidores do Comércio, Rua XV esquina com Tibagi. Era o Dia Anual dos Garçons e me vi sentado na plataforma da orquestra, o estande de partituras à minha frente, numa total inversão de papeis, servindo aos garçons que me serviam o ano inteiro na noite curitibana depois do fechamento do jornal.


Garçons do Bar Palácio, do Stuart, da Cometa, do Buraco do Tatu, do Triângulo. Todos conhecidos, passavam bailando por mim, com a amante, com a própria, e me acenavam surpresos e radiantes. E eu gelado, olho esquivo na partitura, nos tatibitates do sopro e das chaves do sax, suores frios na noite de inverno. De repente, o baile terminou. Ufa! Encaixo o saxofone no seu esquife negro, Altevir me chama para um canto nos fundos do salão.


– O seu cachê – e coloca na palma da minha mão um maço de notas frescas de cruzeiros, uma quantia até razoável para meu pífio desempenho. Simbolicamente, valeu milhões: o primeiro e único cachê de músico em toda minha vida.


A partir daí ousei sair pela noite fazendo serenatas para as namoradas, ou candidatas a, no plural mesmo, vários pássaros voando e nenhum na mão. Mas serenata personalizada com saxofone tenor era um tremendo trunfo. Alcidino Pereira fazia serenata com uma vitrola de corda, lembro que tocava sempre um velho 78 rotações, Again.


Além do charme do saxofone, havia outra vantagem. Meu pai, Gavino Roque, com seu instinto protetor italiano, podia se despreocupar das andanças do filho, cujo comportamento na época se poderia catalogar como “juventude transviada light”. A geomorfologia de Curitiba contribuía.


A cidade é uma grande concha, com a parte alta que vai do Bacacheri até o Batel e o trecho mais espraiado ao sul, no caminho do aeroporto. Do alto da Carlos de Carvalho ele ouvia o filho fazendo uma serenata com seu saxofone para uma namorada na subida das Mercês ou para outra pretendente na Visconde de Guarapuava.


Pensando bem, meu saxofone foi ainda outra coisa mais: um precursor analógico do GPS...

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