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  • Marcos Villanova

Saul Steinberg - O escritor que não escrevia, mas desenhava.

Updated: Jun 22


De Saul Steinberg, disse Millôr Fernandes num chat promovido pelo UOL em 1998, na idade da pedra lascada da internet brasileira: “Saul Steinberg é o maior artista plástico do século XX. Não convém compará-lo com artistas menores como Cézanne, Mondrian, Paul Klee. Ah, ia me esquecendo: Picasso.”


Esta entusiasmada opinião não é fruto de uma idiossincrasia do genial cartunista, escritor, dramaturgo e tradutor brasileiro. Bem ao contrário, é apenas mais uma entre centenas de outras, sempre elogiosas opiniões de artistas e críticos de arte de todo o mundo sobre o trabalho de Saul Steinberg.

De si mesmo Steinberg dizia ser um escritor que desenhava em vez de escrever.


Nascido na Romênia em 1914, Steinberg estudou Filosofia e Letras durante pouco mais de um ano na Universidade de Bucareste.

No livro Reflexos e Sombras, em que narrou suas memórias para o escritor italiano Aldo Buzzi, um grande amigo de toda a vida, Steiberg comparou sua infância e adolescência na Romênia “mais ou menos equivalente com a de ter sido negro no estado do Mississipi”.


Em sua memória, Bucareste surge como uma cidade estranha, iluminada por lampiões que funcionavam à base de querosene, o que deixava as pessoas, que vendiam o óleo em barris, com um cheiro que afastava todo mundo.

De vez em quando certos cheiros que não sinto desde criança retornam, não ao nariz, como um cheiro propriamente dito, mas ao cérebro do nariz. Cheiros vagos e precisos ao mesmo tempo: cheiro de outono; de certas lojas; cheiro de começo de inverno, de início do frio: o primeiro fogo em casa, as luzes a partir das cinco da tarde. A estufa de metal, acesa pela primeira vez, tinha um cheiro peculiar, também porque a superfície fora untada para evitar a ferrugem. E sempre o cheiro do lampião a querosene”.

Ele lembra de ver, pelas ruas da cidade, muitas moças vindas do interior, ainda intocado pela mundanidade, que vinham trabalhar em busca de uma vida melhor, mas passavam a ser tratadas como escravas ou arrebanhadas por trapaceiros que as levavam para a prostituição. Algumas delas se suicidavam encharcando o corpo com querosene e riscando um fósforo.


Quando mudou-se para a itália, em 1933, com 19 anos, Steinberg foi morar em Milão, onde estudou arquitetura no Regio Politecnico.

Foi estudando arquitetura que Steinberg começou a se interessar por desenho. Muitos anos depois, em dezembro de 1965, numa entrevista à revista Life, ele recordaria:

Sempre tive gosto por desenhar, mas sem muito talento. Só descobri minha habilidade quando meu primeiro desenho foi publicado em Milão. Levei mais ou menos dez minutos para desenhar, mas quando o vi impresso na revista, fiquei horas olhando, hipnotizado. Percorria devagar cada uma das linhas. É bem provável que estivesse admirado menos com o desenho e mais comigo mesmo.

Este primeiro desenho, assim como muitos outros, foi publicado numa revista chamada Bertoldo, editada na época pela Rizzoli, que dava seus primeiros passos antes de se tornar um dos maiores grupos editoriais da Europa.


Mas foi só após o fim da guerra, depois de várias tentativas, quando finalmente conseguiu imigrar para os Estados Unidos e iniciar sua colaboração para a mais respeitada publicação cultural americana – a revista New Yorker - é que Steinberg teve seu talento reconhecido.

A partir daí são incontáveis os números de exposições em museus e galerias de todo o mundo, de publicações nas mais prestigiosas revistas e a impressão de dezenas de livros.


Particularmente para nós, brasileiros, há algumas curiosidades na carreira deste genial artista. Para conseguir o visto de entrada e permanência nos Estado Unidos, Steinberg teve a ajuda de dois irmãos – Victor e Cesare Civita – que o conheceram na Itália, na época da Rizzoli e que, mais tarde, fundariam a Editora Abril na Argentina e no Brasil.

Deste contato com os Civita resultou a primeira capa de uma revista feita por Steinberg, desenhada em 1941 para o primeiro número da Sombra, revista editada no Rio de Janeiro e que pretendia, conforme texto de abertura do poeta Augusto Frederico Schmidt, “fixar o lado elegante e civilizado do Brasil”. Além do trabalho de Jean Manzon editando a fotografia, Sombra tinha, entre seus colaboradores, Mário de Andrade, Stefan Zweig e Vinicius de Moraes.


Mas talvez o episódio mais marcante das relações do artista com o Brasil tenha sido a exposição organizada em São Paulo, em 1952, no MASP, por Pietro Maria Bardi, diretor do museu, e por sua mulher, a arquiteta Lina Bo Bardi, que também estudara arquitetura no Reggio Politecnico de Milão, e fora colega de Steinberg.


Preocupado que a critica brasileira, por desconhecimento, pudesse estranhar uma mostra de um “simples caricaturista” em um “museu de arte com A maiúsculo”, Bardi redigiu materiais de divulgação da exposição, realçando a importância “artística” do trabalho de Steiberg.

Num dos folhetos escreveu: “O Museu de Arte apresentará a partir do próximo dia 18, uma exposição de Saul Steinberg, o poeta da caricatura, o observador mais agudo produzido pela arte contemporânea.

Steinberg consolidou sua fama mundial com uma série de trabalhos publicados em todos os idiomas e em milhões de exemplares, que formam

uma das visões mais autênticas do espírito contemporâneo. Com seu desenho, Steinberg escreveu páginas divertidas, e ao mesmo tempo melancólicas, sobre a sociedade e acontecimentos desses últimos quinze anos. Suas caricaturas estão se tornando o poema da ironia.

Steinberg soube colher o ridículo em todas as coisas inúteis, em todas as ambições erradas e vaidades deformadas. Steinberg inventou um mundo novo, mediante o mero julgamento de seu próprio mundo. Inventou as lágrimas, aquelas pérolas suspensas nos olhos tristes das pessoas que parecem símbolos antiqüíssimos de ternura e emoção. Inventou flores, florezinhas, folhas, como uma vegetação de fábula maliciosa. Inventou os óculos agudos como telescópios e cegos como túneis, que são o símbolo da miopia humana. Inventou todo um mundo triste, mas humano (...).


Nada presisa ser acrescentado à esta perfeita análise da obra de Steinberg.

Depois da exposição, Steinberg, que veio ao Brasil acompanhado por sua mulher, aproveitou a viagem para conhecer várias cidades, como Aparecida do Norte, Rio de Janeiro, Petrópolis, Salvador, Belém, Recife e Manaus. Sabe-se que o artista fez muitos rascunhos e anotações, preenchendo pelo menos três cadernos de desenho. No total, a viagem ao Brasil deve ter durado pouco mais de quatro semanas.

O que durou muito mais foi a influência do trabalho de Steinberg na geração dos anos 60 de cartunistas brasileiros, entre os quais destacam-se Millôr, Ziraldo, Claudius, Jaguar, Borjalo e Fortuna. Claro que cada um destes artistas absorveu a seu modo a influência do americano em seus respectivos trabalhos, mas, todos, sem exceção, citam Steinberg como sua principal referência e inspiração.

Morto em 1999, Saul Steinberg foi um dos mais originais e criativos artistas do século XX. Por ter optado pelo desenho e ter por base o papel, não é reconhecido e valorizado como outros artistas que optaram pela pintura e pelas telas. Mas nenhum outro artista como ele nos deixou, em desenhos maravilhosos, uma generosa visão do mundo em que viveu, o das grandes cidades americanas, com seus enormes edifícios, avenidas, automóveis, postos de gasolina, aviões, anúncios luminosos, praças e monumentos. Desenhou também, como nenhum outro, as pessoas em situações de perplexidade diante de desfiles de moda, paradas militares, e uma infindável galeria de personagens míticos como cowboys, índios, militares, madames e seus animais de estimação.

Clique no link abaixo e assista um excelente documentário sobre Steinberg produzido quando o Instituto Moreira Sales promoveu a exposição As Aventuras da Linha, em 2011.


https://youtu.be/h-1qtAHCPMQ

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