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  • Roberto Muggiati

Pequena anedota daltônica de Bloomsday


No final dos anos 1950, Dalton Trevisan e eu mantivemos um salutar Atletiba literário — Joyce versus Salinger. Joyceano roxo, Dalton via em Salinger uma religiosidade mística que não lhe agradava. Igualmente ateu, eu argumentava que o Zen de Salinger nada tinha de religioso, era mais uma postura filosófica diante da vida, kierkegaardiana, existencialista.


Dalton voltava à carga cobrando de mim a leitura de A Skeleton Key to Finnegans Wake. Dalton e eu nos víamos com frequência enquanto morei em Curitiba, antes de partir para dois anos de Paris e três de Londres – embarcando no avião da Panair no dia exato em que completava 23 anos, em 6 de outubro de 1960. Depois, nosso contato se deu à distância: eu, lendo cada novo livro da sua prodigiosa produção (“Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João, a mesma bendita Maria,” o próprio Dalton comenta.)


Eis que, muito tempo depois, no conto “Marishka”, do Desgracida (Record, 2010), vejo que Dalton cedeu ao meu doutrinamento e homenageia Salinger no final da enumeração dos encantos da moça, ao melhor estilo da letra de “You’re The Top”, do Cole Porter: “Marishka transcende o tempo. É um diálogo de Platão, broinha de fubá mimoso, um poema de Rilke, o coração da alcachofra, girassol de Van Gogh, o cantiquinho da corruíra, um conto de Tchecov, o som de uma só mão que bate palmas.”


Ora, o som de uma só mão batendo palmas, um koan (charada) Zen, é a epígrafe das Nove estórias, de Salinger.


Charada por charada, lembrei hoje, neste Bloomsday confinado – ou, diria Joyce, coffinated – de um lance tipicamente daltônico. Dalton e eu nos encontramos em outras praias que não o asfalto da Avenida João Pessoa, mas nas ondas preto-e-branco de pedras portuguesas da calçada da orla de Copacabana, em 1960. Naquela época, curitibano chique fugia do inverno no Rio. No Posto 5, Dalton e eu fomos almoçar no acolhedor restaurante germanídeo Lucas, com suas cortininhas xadrez vermelho-e-branco.


Reporto-me às apetências de Leopoldo Bloom, Ulísses na tradução do Antônio Houaiss:

“Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos (sic) de quadrúpedes e aves. Apreciava sopa de miúdos de aves, moelas amendoadas, um coração assado recheado, fatias de fígado empanadas fritas, ovas de bacalhoa fritas. Mais do que isso, gostava de rins de carneiro grelhados que davam ao seu palato um sabor de tenuemente aromatizada urina.”


Pois não é que, do cardápio do Lucas, o Dalton encomendou rins grelhados? Sim, com a tenuemente aromatizada urina. E os degustou com uma sanha vampiresca. Só hoje, agora, neste momento exato do cabalístico 2020, me dou conta de que talvez fosse o seu eppur si move! a forma sutil do Dalton de marcar Joyce 1 x 0 Salinger. E, pensando melhor, quem sabe fosse aquele dia exatamente o Bloomsday, quinta-feira, 16 de junho?


Uma sutileza que, em se tratando do nosso Dalton Trevisan, é totalmente plausível.

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