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  • Roberto Muggiati

PARIS POR UM TRIZ - Voyeur num funeral me esfregando na musa BB


Eu morava na Maison du Brésil, na Cité Universitaire. O correspondente do JB Luiz Edgar de Andrade me deu a dica na manhã da sexta-feira, 16 de dezembro de 1960: “Às onze horas, missa de corpo presente de Vera Amado Clouzot, na igreja Saint-Pierre-de-Chaillot.” Imediatamente peguei o metrô para a Avenue Marceau, uma daquelas vias monumentais que se irradiam do Arco do Triunfo, na Étoile.


Filha do diplomata Gilberto Amado, Vera, 48 anos, virou atriz por acaso e casou com o famoso cineasta francês Henri-Georges Clouzot. Fez três filmes sob sua direção: O salário do medo (1953), As diabólicas (1955) e Os espiões (1957). Nos dois primeiros ela morre, no terceiro faz o papel de uma muda – a escolha dos papeis não chegava a ser uma declaração de amor do marido. Pouco antes de completar 47 anos, o coração de Vera explodiu. Quando o cardiologista anunciou que tinha os dias contados, Clouzot chegou a propor-lhe um pacto suicida.


A igreja estava cheia de celebridades. Num jornal do dia seguinte, saí na primeira página a poucos metros de Brigitte Bardot e de Françoise Arnoul, minhas musas dos filmes franceses no Cine Marabá, em Curitiba. O semanário ilustrado Noir et Blanc publicou uma página inteira: “AUX OBSÈQUES DE VERA CLOUZOT LES COMÉDIENS NE JOUAINT PLUS.” Numa das seis fotos, eu apareço atrás de Daniel Gelin, o grande ator que, depois do Último Tango, ficaria conhecido como “o pai da Maria Schneider.”


O corpo de Vera ficou no alto de um catafalco perto do altar, coberto por uma montanha de coroas de flores. Naquele ambiente santificado e solene, estou respirando o mesmo metro cúbico de minhas musas... De repente, sou empurrado pela massa e me vejo cara a cara com o monstro sagrado do cinema, Henri-Georges Clouzot, que estapeava seus atores para lhes arrancar a interpretação perfeita – naquele momento um homem em profunda dor pela perda da mulher.


Com os olhos marejados, Clouzot coloca em minha mão um aspersor de água benta, com o qual devo lançar algumas gotas sobre o corpo da defunta, eu repito o que vi fazer Charles Vanel, que veio à minha frente na fila dos cumprimentos. Clouzot agradece minha solidariedade, aperta-me num abraço forte, como se eu fosse seu amigo há décadas.


Olho então bem fundo nos seus olhos e vejo ali uma culpa transcendental. Lembro o enredo de Les diaboliques: o marido trama com a amante um ardil para levar a mulher – cardiopata, como Vera – a sofrer uma pressão que seu coração não irá suportar. O crime perfeito, por causas naturais. Na minha fantasia maldosa, decido que Clouzot foi o culpado da morte de Vera. Coitado dele, se arrastaria por mais 17 anos até morrer aos 69, depois de vários ataques do coração.

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