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  • Roberto Muggiati

PARIS POR UM TRIZ - Uma cidade em pé de guerra


Paris guardava cicatrizes de muitas lutas, de muitas épocas em seus mais diversos quartiers. Da Revolução, da Comuna, da Ocupação nazista. Quando ia toda noite a pé do metrô de Luxembourg até a Cinémathèque na rue d’Ulm, me deparava com uma cabeça decepada enfiada na ponta de lança de uma grade de ferro – uma cópia em argila mais recente da original, humana, guilhotinada na época da Bastilha.


Prédios e paredes na rive gauche ostentavam furos de balas dos tiroteios da Segunda Guerra, quando os alemães foram rechaçados de Paris, episódios descritos no filme Paris está em chamas? Em abril de 1961, morando na Île de la Cité, vivi na pele o malogrado putsch dos generais da Argélia, quando quatro cinco estrelas de pijama ameaçaram não só tomar conta do poder na colônia – onde os gaullistas já negociavam a libertação da Argélia – mas invadir aeroportos estratégicos com paraquedistas, ameaça que foi detectada pelo serviço de inteligência do primeiro ministro Debré.


Em 22 de abril, todos os voos e decolagens foram proibidos em aeroportos parisienses e o exército foi mobilizado para resistir ao golpe. No dia seguinte, o presidente Charles De Gaulle fez um famoso discurso na televisão, vestindo seu uniforme vintage de general dos anos 1940, conclamando o povo francês a apoiá-lo. Na noite de 24 de abril, voltando do lançamento do livro American Express, de Gregory Corso, para meu hotel, encontrei todas as pontes que levavam à ilha bloqueadas por fileiras de ônibus e centenas de gendarmes – com suas casquettes e pélerines –fazendo a triagem de cada passante: “Vos papiers, s’il vous plaît?”


Felizmente, naqueles tempos difíceis, eu andava sempre com o passaporte e a Carte de Séjour de bolsista. O putsch dos generais foi para a putzgrila, mas a conspiração da direita (lembram o filme O dia do chacal, que mostra a tentativa de assassinato de De Gaulle?) seguiu firme. Até o fim do ano, houve uma escalada de explosões por Paris inteira, mas o movimento anticolonialista seguiu em frente e a Argélia se tornou independente em 5 de julho de 1962.


A esta altura, eu já estava de volta a Curitiba, não posso dizer seguro e tranquilo, o horizonte brasileiro já estava carregado com as nuvens negras do golpe militar iminente, Mesmo assim, não podia dizer que havia esquecido os tempos sombrios da Paris aterrorizada de 1961.

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