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  • Roberto Muggiati

PARIS POR UM TRIZ - Os Três Mosqueteiros – e Milady


O trio se conheceu nos vértices – ou no vórtice – do City Hôtel, já mencionado. Ollie Heikinen, um finlandês no mais profundo estado de indigência; Peter J. Solomon, da família de banqueiros judeus de Nova York, estagiando num banco americano de Paris; e eu, curitibano bolsista em Paris, repetente do quarto ano de engenharia e jornalista, o que não era profissão na época.


Ollie estava no City Hôtel porque comia uma senhora que morava lá. Casou com a namorada de infância, que se elegeu Miss Finlândia, tentaram a sorte em Paris e se deram mal. Ela ainda livrou a cara entrando para a chorus line do Crazy Horse Saloon, que exibia aquelas apetitosas mulheres de peito de fora. Ollie ficou ao Deus dará, enquanto deu. Voltou para a Karhula, um buraco perto da fronteira soviética, o pai operário soprava vidro numa fábrica. Fui visita-lo no sol da meia-noite, imaginei o que seria o breu do meio-dia nos meses de vodca e suicídio do inverno.


Peter era alérgico e naquela primavera sofreu muito da febre do feno. Andava sempre de capa de chuva, embora quase não chovesse na época. Milagrosamente, um paparazzo fixou um flagrante nosso caminhando pelo boulevard Saint-Germain numa sexta-feira de maio de 1961 Saint-Germain. Morava também no City Hôtel uma sueca grandona e coxuda que tinha sido dançarina do Folies Bergères, Inge Margaretha Wegge. Milady dava para os três mosqueteiros.


Um dia cada um seguiu o seu caminho. Peter, que morava com os pais na Park Avenue e era vagamente hemingwayano, combinou em 1963 de nos encontramos nas San Fermines de Pamplona, a festa maior da tauromaquia. Quando cheguei à pensão onde ele reservara quartos para nós, já tinha partido com a noiva. Nunca mais o vi.


Se ainda vive, deve viver na opulência, coitado. Já Ollie é possível que tenha tirado o pé da lama, graças à Nokia, que fez da Finlândia um país rico. Quanto a Inge a coxuda – na última vez que nos vimos ela comprou uma peça de uns dois quilos de carne de primeira para nossa última ceia. Naquela noite deixei para sempre o quarto do City Hôtel para seguir de carona até a Finlândia. Mas esta já é outra história...

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