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  • Roberto Muggiati

PARIS POR UM TRIZ - O primeiro muguet de maio


São coisas que a gente só aprende em Paris. No dia 1º de maio é costume usar na lapela um buquezinho de muguet (lírio-do-vale). Em 1961, o feriado caiu numa segunda-feira, no começo da tarde eu caminhava pelos Champs Élysées abarrotados com minha primeira namorada francesa, Jacqueline Voulet, uma gracinha, Vários quiosques e ambulantes vendiam a florzinha, Jacqueline comprou uma e espetou na minha lapela. Conheci a moça uma semana antes, no lançamento do livro American Express do poeta americano beat Gregory Corso. O editor Maurice Girodias, da Olympia Press – o homem que publicou Lolita do Nabokov – levou os remanescentes do fim de festa em dois táxis para cearem no La Coupole. Jaqueline e eu saímos de lá de mãos dadas.


Agora, 1º de maio, eu subia o Champs com a amada na mão e uma ideia na cabeça. Perto da Étoile ficava o palacete de Paulo Carneiro, embaixador do Brasil na Unesco. Sua mulher se recusava a deixar o Brasil, Paulo se dava bem na sua solteirice em Paris. Seu sobrinho, Octávio Carneiro Lins, meu melhor amigo, morava com ele. Eu tinha livre acesso à mansão da rue Auguste Vacquerie. Nem chave tinha, a porta estava sempre aberta, adentrei o palacete com Jacqueline – a francesinha ficou impressionada – não havia ninguém por lá, logo nos pusemos à vontade, deitamos e rolamos nos sofás do salão neo-rococó.


Paulo sabia muito bem os usos galantes que sua entourage fazia de sua casa, por isso – elegante como só ele – costumava chegar sempre assobiando alto para alertar os eventuais transgressores. Foi o tempo justo para que Jacqueline e eu nos recompuséssemos e cumprimentássemos o embaixador, que apenas sorriu de leve. A minha “primeira vez”, em Curitiba, dez anos antes, foi marcada pelo cheiro dos maços de arruda que a polaca tinha na mesinha de cabeceira. Veni, vidi, vici: em minha primeira vez com uma francesa, ficou para sempre o suave aroma do muguet.

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