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  • Roberto Muggiati

PARIS POR UM TRIZ - Dançando La Bostella no New Jimmy’s


A baiana Maria de Lourdes Campos – a lendária Bombom de Paris – queria porque queria casar com Bernard Malle. Irmão do cineasta Louis Malle, Bernard era um fainéant que se dedicava a colecionar livros raros. Podia se dar ao luxo, sua família era podre de rica. Fornecedores oficiais do imperador Napoleão, os Malle eram os maiores fabricantes de açúcar de beterraba da França. Dez anos mais velha que eu, Bombom resolveu me usar para atingir seu objetivo. A ideia era ter um caso comigo e provocar ciúmes no amante.


“Le jour de gloire est arrivé!” – declarou solenemente Kiki Malle, irmã de Bernard, até ela dava a maior força aos planos de Bombom. Naquela noite íamos aprontar uma festa de arromba no New Jimmy’s, a nova boate de Regine em Montparnasse. No táxi, Bombom mostra minhas meias de cano longo para Kiki – uma gracinha e ainda por cima miliardária, por que perdi o bonde da História? – garotas chiques abominavam homens de meinhas curtas, as de cano alto eram uma espécie de fetiche para elas.


Dia de semana comum e o Jimmy’s estava lotado – e festivo. A dança da moda era La Bostella – os franceses pronunciavam Bostellá – homenagem ao autor da letra, o DJ Ivan Hornbostel. Só brasileiros como Bombom e eu caíamos de rir do nome, por suas conotações fecais...


Bebemos vários bruts das mais honradas safras ao longo da noitada. A despesa da farra, bien sûr, foi pendurada na conta de Monsieur Malle. Subindo as escadas de volta ao apartamento do Bombom ouvimos a campainha insistente do telefone. Bombom atende e me manda pegar a extensão. Era Bernard, lembro e sou capaz de imitar perfeitamente as palavras e o tom de voz: “Mais Bombom, tu es folle!? Qu’est-ce que t’as fait, sacré nom de Dieu?!”


O plano de Bombom surtiu efeito. Um ano depois, ao chegar a Londres para trabalhar na BBC, hospedo-me no apartamento de meu amigo Octávio, enquanto procuro alugar um para mim. De repente, Octávio – foi ele quem me apresentou Bombom – pede o quarto. “Desculpe, mas Bombom e Bernard estão vindo para Londres e vão ficar aqui.” Quando volto da BBC para apanhar meus pertences, vejo que o casal já está instalado no quarto de hóspedes. Na mesinha de cabeceira, o livro que Bernard está lendo: L’Histoire de Genji, da Dama Murasaki, o grande romance sobre a corte japonesa do século XI, antecipando Proust em oito décadas. Homem de bom gosto este Bernard...


E Bernard e Bombom viveram felizes até que a morte os separou.




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