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  • Luiz Antonio Solda

"Ora direis ouvir orelhas..."

Seja breve, diz a música de Noel Rosa. Seja longo, extenso, mas seja breve. Se você se estende demais na orelha de algum livro não ouvirão o que você quer dizer. E lembrando um ditado que trouxe de Itararé, a minha Caicó – Quem fala demais acaba dando bom dia pra cavalo.


Ela é de Caicó. Jamais pensei que uma caicoense pudesse ter tais atributos. É tudo tão longe, não é? E a gente nem sabe direito onde é Caicó. E se existe. (...) Caicó, meu Deus! Vou comprar hoje mesmo um mapa desse Brasil bandalho se chama Líria. (Contos D’Escárnio. Textos Grotescos, de Hilda Hilst)


Fui convidado pela Nara para escrever a orelha deste livro. Pensei em começar mais ou menos assim: Assionara Souza é uma molécula, menínula sapécula que anda de biciclétula atrás das palavras, para apanhá-las pelo rabo, pela cauda, e encaixar, uma por uma, no cotidiano dos seus personagens, que sempre existiram, e ela as usa na medida exata, na rua, aqui, ali e em todo lugar, sempre, sem tirar nem por.

Ela confessa ter matado aula na graduação para continuar lendo Contos D’Escárnio, Textos Grotescos, de Hilda Hilst, citado acima, justamente pela cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, onde nasceu Assionara.


Nara adotou Curitiba para viver, para nossa alegria e felicidade. De fala mansa e gentil, essa menina descarta o desnecessário e mostra que o excesso não faz falta, quando o simples, exatamente o simples, pode explicar tudo. Assim são as imagens e sugestões na literatura refinada e na poesia da escritora.


Creio que até os bilhetes, a lista de compras de supermercado, a agenda de compromissos e as anotações dela sejam obras literárias, minuciosas, encantadas, escritas por alguém que não tem pressa, como as pessoas que, quando viajam, prestam atenção nos detalhes do percurso, sem se importar com o tempo pra chegar lá.


Nós não temos nada. Só aquilo que nos falta. Isso acontece quando passeamos por nossas memórias e, como Nara, trazemos debaixo do braço histórias pessoais com a leitura de Na Rua, a caminho do circo. Livro contemplado no Petrobras Cultural, foi cuidadosamente pensado, escrito como o pão nosso de cada dia, trazido de alguma tarde de nossa infância.


Alguém já disse que escrever é observar atentamente os pormenores da realidade, como um sonho, sabendo escolher a gota da chuva que vamos esconder na nossa caixinha de inutilidades, para lavar a alma, numa tarde qualquer.


Essa menina de Caicó agora faz parte do Condomínio da Palavra, criado por Luiz Carlos Rettamozo, uma das antenas da raça (no meu caso, da roça) de Curitiba.

Então, Nara? Satisfeita? Creio que a encomenda foi entregue, não? Agora, temos que ir.


Orelha do livro Na Rua: a caminho do circo.

Luiz Antonio Solda




Assionara Medeiros de Souza (1969|2018) escritora e dramaturga brasileira. Nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, em 2003, foi pesquisadora da obra de Osman Lins. Fez o mestrado e o doutorado também na UFPR

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