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  • Roberto Muggiati

Olho de editor


Não há cargo mais arriscado do que editor de revista ilustrada. Em 1970 eu dirigia a semanal da Bloch Fatos&Fotos. O Brasil estreava na Copa do México desacreditado e com um susto, em Jalisco: já aos 11 minutos, tomava um gol da Checoslováquia, mas acabava virando o jogo e ganhando de 4x1.


F&F fechava à quarta-feira e ia para as bancas na sexta. O jogo foi numa quarta-feira. O entusiasmo pela seleção nos fez adiar o fechamento para quinta-feira. O fuso do México nos ajudava, recebemos as fotos pelo malote que chegou ao Rio na quinta, eram rolos e rolos de filme a ser revelados, demos preferência ao preto e branco pela urgência do fechamento.


O laboratório revelava, depois copiava as tiras das fotos em 35mm nas “folhas de contato”, a partir das quais o editor escolhia as melhores imagens com a ajuda de uma lupa. Reparem, cada fotinho daquelas ocupava um pequeno retângulo de 35mm, ou seja, 3,5 centímetros de comprimento.


Agradeço ao meu pai por encher a casa de livros com as obras-primas dos grandes museus e as melhores revistas de fotografia. Imaginem o vexame de deixar escapar uma imagem premiada... Reporto-me a um caso célebre na área dos livros. No mesmo ano, o editor Robert Giroux rejeitou On the Road, de Jack Kerouac, e The Catcher in the Rye, de J.D. Salinger, os maiores cults da literatura americana do século 20.


Quando os “contatos” pousaram na mesa de edição, foi como um golpe de mágica, meu olho logo caiu sobre a foto de Orlando Abrunhosa que mostra Pelé comemorando o gol da virada socando o ar no vértice de um triângulo perfeito formado por ele, Tostão e Jairzinho. Um detalhe importante: era uma foto horizontal, mas privilegiamos o corte vertical para maior efeito estético.


Publiquei na capa, num preto-e-branco azulado com as chamadas e o logotipo em cor. Na manhã do sábado a revista esgotava nas bancas do Rio e de São Paulo em poucas horas. Na semana seguinte, Paris-Match publicou a foto na capa, numa versão colorizada. A foto – que nós apelidamos “os três mosqueteiros” – ganhou o mundo nas décadas seguintes, foi até um selo comemorativo dos correios brasileiros. É uma das fotos que, em meus 28 anos de editor de revista ilustrada – mais me orgulho de ter publicado.

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