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  • Evandro Barreto

O pão e as cinzas




O essencial do caso me foi relatado como autêntico por quem acompanhou de perto. A alegoria e os adereços da narrativa são por minha conta.


Geraldo C, brasileiro, casado, reservista, funcionário dos Correios, nascido e residente numa casa com goiabeira no quintal, bairro de Santa Rosa, Niterói (RJ). Segundo os vizinhos, um cidadão discreto, com horas certas para sair de casa e voltar do trabalho, trazendo pão quente e a tempo de passear com o cachorro antes do jantar. Numa sexta-feira de carnaval quase morreu atropelado pelo caminhão enlouquecido que invadiu a padaria, justo na hora em que ele saía. Escapou por centímetros, com um joelho esfolado e a sacola de pães esmagada.


No caminho de casa, que pareceu interminável para as pernas trêmulas, Geraldo fez algo fora do padrão: refletiu. E se... Quanta coisa sonhada e nunca tentada, quanta prudência em vão, quanto desperdício de carne e alma. Naquela noite foi dormir mais cedo e não conseguiu.


Sábado de manhã, os primeiros blocos na rua, saiu para comprar o pão que faltara na véspera. Voltou na quarta-feira de cinzas, às três da tarde, manchado de batom e cantando “mamãe, eu quero”. Com o pão debaixo do braço.


Daí pra frente, ganhou da vizinhança o apelido de “Pão Dormido”.

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