Search
  • Evandro Barreto

No mote de Mugiatti, Paris em dois movimentos


Movimento 1

Aos vinte anos, você pode desembarcar em Paris na primavera, sem dinheiro, querendo ser Hemingway, Van Gogh, Gene Kelly ou apenas você mesmo, sem intermediários. Se Rimbaud se afirmava um outro, você pode ser muitos. “Sommes-je pluiseurs?”. Você pode abordar na rua uma garota guatemalteca que lhe arranja um quarto no hotel em que mora, a trinta passos da casa onde Sartre nasceu. Não é um mau quarto, considerando o que você pode pagar, apesar dos cinco lances de escada. Outra vantagem é a vista: nada para distrair a atenção de quem pretende escrever e inventariar o próprio e incomensurável umbigo.

A paisagem é um muro encardido, onde se lê “Defense d’afficher. Loi de 29 juillet 1881”. Aprende-se que, além do 14, há na França outro dia importante no mês de julho. E você decide que nunca mais permitirá que lhe colem cartazes.

Então você está em Paris e escreve. Não importa o quê. Da mesma forma, você poderia estar tocando flauta por moedas numa esquina de Atenas, procurando um guru no Nepal, catando cogumelos mágicos num pasto do litoral baiano. Você olha de novo para o muro encardido da rue Malebranche.O letreiro continua proibindo colar cartazes. Abaixa os olhos até o umbigo e descobre um botão cromado. Aperta o botão e as letras do aviso se embaralham. “É proibido proibir”. Sem explicação, a primavera é a de 1968. O general De Gaulle passa correndo, de roupão tricolor e quepe, com a estudantada atrás. Desce a escadinha e some na rue Le Goff. Você se debruça na janela e comprime de novo o botão, desta vez sem querer. Esse acidente muda tudo. Você acaba de matar um mandarim da nova classe na China e sua vida nunca mais será a mesma. O botão passa a comandar sozinho a ilha de edição alojada no seu ventre.

(Fragmento de crônica do livro “Na mesa cabe o mundo”- Evandro Barreto- Editora Conexão Paris)

12 views