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  • Evandro Barreto

No mote de Muggiati, Paris em dois movimentos


Movimento 2


Agora, você escreve para ganhar dinheiro. Publicitário, acaba de filmar na Inglaterra um comercial que marcará época. Decide dar-se de prêmio pelo trabalho bem feito uma semana de férias do outro lado do canal. Mas continua sem comandar o desenvolvimento da ação. Os papéis que escreve para personificação própria podem até ser verossímeis, mas raramente são verdadeiros. O botão cromado na barriga tem autonomia, gosto pelo contraditório e um enlouquecido senso de humor. Vai mudando cenários, argumentos e coadjuvantes sem consulta ou respeito.

Por ora, mantém a locação, mas resolve fazer um insert do primeiro dos seus tantos retornos a Paris, dez anos depois da primeira viagem, dez anos antes desta. Lá está você, diante do velho hotel, olhando para a janela do quarto dezoito e tentando localizar alguém muito jovem que escreve atrás da vidraça. A fachada do Hotel de Senlis foi reformada, mas a inscrição proibitiva persiste no muro oposto. O que é que se faz com um momento assim?

Hollywood ensinava a acender um cigarro, afastar-se devagar e dar uma última olhada por cima do ombro, antes de sumir na bruma. A pausa é suficiente para um pombo fazer cocô na sua cabeça. Você aprende outra lição: olhar para trás recarrega a certeza de ter vivido, mas parar é muito perigoso. Os pombos estão sempre à espreita.


(Fragmento de crônica do livro “Na mesa cabe o mundo” - Evandro Barreto - Editora

Conexão Paris)

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