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  • Evandro Barreto

Lord Guiomar

Updated: Jun 16


Com certo esforço, abri um olho e procurei a sineta pelo tato. Quando Jenkins entrasse com o chá fumegante e o jornal com as notícias do Império, certamente eu me sentiria melhor. Em lugar da sineta, porém, minha mão tocou uma garrafa que se espatifou o chão. Um cheiro absolutamente vulgar de aguardente barata a tudo envolveu. Sem entender o que acontecia, reuni as poucas forças que restaram dos excessos da véspera e abri os olhos por inteiro. Onde, by God, estava eu?

Um negro enorme surgiu à minha frente e arrancou-me as cobertas.

- Levanta, mulé! Tu quer perder o trem? – gritou.

Sentei na cama – se aquilo era cama – indignado. - I beg your pardon! - Qual é, Guiomar? Tás arranjando por onde levar uma bolacha!

Pela rainha! Que estranha língua falava aquele homem? Então, minha boca falou.

Ela sozinha. Deus é testemunha que eu não disse, nem entendi, uma palavra. - Já vou, Lino. Vai na frente, que ainda falta fazer as cocadas.

Dei um salto de horror e surpresa. Um seio enorme – e mulato – pulou da camisola que eu vestia. - What happens? It’s a tremendous nightmare! Pensei, sem poder encontrar voz.

A mulher, ou eu, ou nós dois, acompanhou o negro até a saída do cubículo. Vi, então, onde estávamos. No alto de um morro, apinhado de casebres. Nem fog, nem torre, nem Tâmisa. Lá em baixo, uma cidade que eu jamais vira. Fechamos a porta depressa.

Foi aí que ela (eu?) tirou a camisola, criando uma situação de intolerável constrangimento. Aliás, ela não parecia notar minha presença. Tranquilamente, vestiu sucessivas peças intimas de algodão grosseiro, depois uma blusa fofa, saia rodada, bata rendada e, na cabeça, turbante enrolado como na Nigéria.


A extravagante indumentária se completava com colares e amuletos diversos.

E que estranha melodia ela cantarolava:”Ogum, vencedor de demanda...” Um desespero lancinante substituiu o pasmo que me dominava desde o despertar.

Se eu morrera dormindo, isto só podia ser o inferno. Tentei correr, gritar, nada. Aprisionado – talvez para sempre – num corpo de mulher!


***

Self control, my dear. O pânico é uma das mais abomináveis fraquezas dos povos continentais. Examinemos a situação. Há três horas esta doceira me carrega por toda parte, sem o saber. Em compensação, já sei de muitas coisas que podem vir a ser úteis. Estou no Brasil.


Guiomar é o que aqui chamam de baiana e seu meio de vida é vender nas ruas salgados e doces com aspecto preocupante e nomes esquisitos: vatapá, acarajé, caruru, pé-de-moleque.


Praticante fervorosa do voodoo (em português, macumba), ontem participou de uma sessão agitadíssima, mais ou menos na mesma hora em que eu, no “Tory Club” de Londres, escorregava para debaixo da mesa, depois do quinto gin.


À falta de outra explicação, levantei uma hipótese para enquadrar a lamentável condição em que me encontro: desconfio que sou uma espécie de linha cruzada nas comunicações de Guiomar com seus espíritos.


Mas tenho planos. Para esta mesma noite. Quando Guiomar dormir... será como se o aparelho fosse desligado. Então, aposso-me do seu corpo e peço asilo à Embaixada Britânica.


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