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  • Marcos Villanova

Liniers. Lírico, surreal, poético, non sense, original, ingênuo, onírico, fantástico, genial.

Updated: Jun 26


Não há aí nenhum exagero, afinal que outras palavras usar para falar de um cartunista que optou por não ter um só personagem, mas por criar pelo menos duas dezenas deles, entre os quais pinguins, duendes, pássaros, sapos, monstros, uma vaca cinéfila, um robot sentimental, girafas sem cabeça (por que são muito altas e “não cabem” nos quadrinhos), um Misterioso Homem de Preto e até uma azeitona (Olivério) que, entre suas muitas aventuras, passa por momentos terríveis, temendo ser espetada por um palito manuseado por um humano cruel, sem esquecer da adorável menininha Enriqueta, seu gato Fellini e seu ursinho de pelúcia, Madariaga.


Além de toda essa galera, não é raro vermos a “participação” de figurantes, como, por exemplo Dart Wader, Picasso, Batman, Woody Allen e até mesmo do próprio Liniers, que, sabe-se lá o porquê, desenha a si mesmo com enormes orelhas de coelho.


Nascido em Buenos Aires, em 1973, Liniers foi se tornando conhecido depois que começou a publicar diariamente sua tirinha Macanudo (uma antiga e ultrapassada

gíria portenha que significa que tudo está bem, tudo bacana) no jornal La Nacion, em 2002.

Seu sucesso foi imediato e, de certa forma, até surpreendente, pois seus personagens não são especialmente engraçados nem heroicos, mas sim poéticos, contemplativos e muitas vezes até melancólicos, refletindo o modo muito particular como o artista vê e interpreta a realidade de nosso insensato mundo.


Em pouco mais de 10 anos Liniers viu seu trabalho ser traduzido e publicado nos EUA, na Europa e na Ásia, em países de culturas tão distintas como Canadá, Colômbia, Perú, Espanha, Itália, França, República Tcheca e até na China. Mas, sem medo de errar, pode-se dizer que o ponto alto de todo esse sucesso foi o convite para desenhar capas para a mítica e sofisticada revista The New Yorker, ícone da cultura americana. Desenhar uma capa da New Yorker equivale, para uma artista gráfico, a ganhar um Oscar ou um Prêmio Nobel. Liniers já desenhou quatro.


Gosto deste comentário feito pela também cartunista argentina Maitena (autora dos livros Mulheres Alteradas e que foi quem, aliás, apresentou Liniers para os editores do La Nacion) na contra capa do volume número 1 do Macanudo.


(...) “Liniers desenha personagens, e seus personagens são macanudos.

E os desenha tão bem que são todos lindos, até os feios são tão perfeitamente feios que são belos. Solitários, com uma inocência pop às vezes algo perversa, se movem com elegância entre a tristeza e o assombro, como atores anônimos de pequenos filmes artesanais de classe B.

Lápis, tintas e aquarelas confluem virtuosas com a poesia e o absurdo em um mundo pleno de surpresas. Qualquer coisa pode acontecer em Macanudo”.


O humor de Liniers, mágico e absurdo, retrata a nossa vida cotidiana, vista pelos olhos ingênuos de uma criança, dos pensamentos de um gato ou das reflexões existenciais de um adulto. Começa do nada e termina de repente, sem muito ruído, nenhuma fúria, mas cheio de significados.

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