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  • ernanibuchmann

Em torno de Shakespeare

Updated: Jun 9



Nas aulas de inglês do Colégio Estadual do Paraná a professora Isolde dedicava-se a nos oferecer maneiras pouco usuais de aprender a língua de Shakespeare.

Inclusive por meio de textos do próprio. Lembro-me que estudamos bastante o discurso de Marco Antônio, em A Tragédia de Júlio Cesar.


Anos mais tarde estou passeando por um mercado das pulgas nos limites de Paris quando encontro uma versão francesa da obra, traduzida por André Gide. Comprei.


Um dia, Paulo Leminski estava olhando examinando uns livros na estante lá de casa quando saí para renovar a cerveja. Tempo suficiente para ele esconder no corpo a parceira anglo-francesa-romana.


Pois é, Leminski foi um grande descuidista, como os jornais de antigamente chamavam os batedores de carteira. Ele, no caso, batia livros, da Biblioteca Pública e de onde eles, os livros, dessem mole.


Assim sumiu meu trágico exemplar. Gostaria de saber os caminhos que tomou, desde então. Daria uma grande obra shakespeareana. Nascida na Inglaterra, baseada em um evento romano anterior a Cristo, traduzida por um dos maiores autores da França, comprada por um compatriota ignorado, arrematada por um brasileiro curioso, surrupiada por um escritor reconhecido.


Também poderia ser transformada em roteiro de cinema. Imaginem: traições, assassinato, amores proibidos, opções sexuais diversas e furto qualificado, entre outros aspectos preciosos para a dramaturgia.


Penso em uma dupla formada por Sherlock Holmes e o agente 007 a desvendar a trajetória do livro. Já me antecipo: talvez hoje esteja compondo a estante de um maduro professor, que acaba de se apaixonar pela aluna mais bonita da turma e tem com ela um caso explosivo, transando entre livros e túnicas vermelhas, como a de Marco Antônio. Tudo é possível.

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