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  • Roberto Muggiati

A calcinha: fantasia covidiana Opus 1




Moro numa vila em Botafogo, uma pista reta afastada cinquenta metros da rua principal. As quatro casas da vila se defrontam com o paredão implacável do prédio vizinho de doze andares. Uma placa branca e hostil que irradia luminosidade e calor o dia todo, cortada apenas por uma fenda central mínima, a área de luz do prédio com as janelas dos diminutos apartamentos pelas quais os moradores têm sua mesquinha visão do mundo e nas quais penduram roupas lavadas para secar.


Caem as coisas mais insólitas o tempo todo. Outro dia – numa cena que me lembra aquela do maravilhoso filme americano de Julien Duvivier Tales of Manhattan/Seis destinos, em que uma casaca cai de um avião à deriva sobre uma favela – vi cair uma calcinha, bailando no ar em câmara lenta.


Depois de relutar alguns minutos, me aproximei do pequeno pedaço de pano. O trauma do toque covidiano com objetos estranhos me fez hesitar ainda alguns momentos. Era uma calcinha de seda creme recém-lavada, com um debrum finamente rendado de um polegar na cintura e nas coxas e o suave aroma de alfazema do sabão em pó. Pelo tamanho da lingerie, a dona devia ter um corpo mignon e bem proporcionado. Morbidamente curioso, cheirei, nenhum vestígio de humores sexuais, apenas o odor perfumado do sabão e do amaciante.


Que fazer? – já dizia Lênin em dúvida atroz.


O confinamento seguramente mexe com a cabeça e a libido das pessoas. Resolvi dormir com a questão e só tomar uma atitude no dia seguinte. Ao acordar, comuniquei ao porteiro do prédio vizinho que uma calcinha com tais e tais características tinha caído na vila e que eu estava à disposição da proprietária se ela quisesse resgatá-la.


O prédio tem doze andares, seis apartamentos por andar, uma média de três moradores por apartamento, isso dá mais de duzentas pessoas, dividindo meio a meio, umas cem mulheres.


Vocês não imaginam as filas que se formaram no portão da minha vila. Todas mascaradas, o que acrescenta uma pitada de mistério à coisa. (Já repararam como, com a moda da máscara, as feias sumiram? Risquem do seu caderninho a Receita de Mulher do Vinícius: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.”)


Estou fornecendo senhas e entrevistando criteriosamente cada candidata, comparando as medidas dos quadris e das pernas com as da peça de lingerie. Parece até uma versão pélvica de Cinderela.


Estou seguro de que, com meu faro de detetive, nos próximos dias encontrarei a feliz proprietária da calcinha voadora...

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