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  • Marcos Villanova

12 de Setembro - O dia de Mencken


Neste dia, há exatos 140 anos, nasceu Henry Louis Mencken, um dos mais brilhantes intelectuais americanos do século XX. Faço essa afirmação sem medo de estar exagerando em função da enorme admiração que tenho por ele, admiração surgida desde que li seu nome pela primeira vez, em textos do Paulo Francis, lá pelos anos 70.


Em 1926 o The New York Times publicou: “H. L. Mencken é o cidadão privado mais poderoso da América”.

Nada mal para um jornalista nascido em Baltimore, no estado de Maryland, que, em 1898, aos 18 anos, começou a trabalhar, como estagiário, num pequeno jornal da cidade, o Morning Herald. Apenas oito anos depois, aos 26 anos, Mencken aceitou um convite para assumir uma coluna no Evening Sun, jornal também de Baltimore, onde trabalhou até o fim de sua carreira. E foi escrevendo esta coluna – onde tratava de política, filosofia, religião, literatura, música clássica, artes plásticas e costumes - que Mencken se tornou o mais conhecido, admirado (e também temido e odiado) jornalista, crítico social e iconoclasta de seu tempo.


Auto-didata, Mencken lia em grego, latim e alemão, e escreveu um livro sobre filologia, “The American Language”, um profundo estudo de como a língua inglesa é falada nos Estados Unidos. Embora seja esse hoje o seu livro mais citado nas antologias e verbetes das enciclopédias, ele escreveu outros, como a trilogia autobiográfica “Happy Days, 1880 – 1892”, “News Paper Days, 1889 – 1906” e “Heathen Days, 1890 – 1936” e outros como “Prejudices”, “Treatise on the Gods”, “On Politics”, “Thirty-Five Years of Newspaper Work”, “Minority Report” e “A Mencken Chrestomathy”.


Além dos livros que escreveu, Mencken fundou e editou, com seu amigo George Nathan, as revistas Smart Set e American Mercury, e nelas publicaram muitos novos escritores, como Joseph Conrad, Eugene O'Neil, Henry Miller, Dorothy Parker e até, last but not least, James Joyce.

Não satisfeito em descobrir e lançar novos talentos, Mencken fez duras críticas a nomes consagrados, como, por exemplo, Dostoievsky, D.H. Laurence e Goethe, três nomes que ele escalou no time dos dez escritores mais chatos do mundo.

OK, mas quem Mencken admirava e repeitava? No alto do pódio, Beethoven, Nietzche e Mark Twain. Mas também, Shakespeare, Cervantes, Tolstoi e Rabelais. Não dá pra dizer que ele não sabia montar suas listas, né?

O respeito e a admiração que Mencken despertava entre seus contemporâneos foi tornando-se visível até nas obras de autores como Hemingway, que, em "O Sol Também se Levanta", faz o narrador dizer: "Quem determina o que os jovens gostam ou não, é Mencken". E vale dizer que Mencken não gostava de Hemingway...

Também Sinclair Lews e Anita Loos inpiraram-se em Mencken para criar alguns de seus personagens.


Muito antes do surgimento do Politicamente Correto, Mencken já ridicularizava a hipocrisía e os preconceitos de quem quer que fosse, dos mais poderosos políticos e ricos empresários, aos mais famosos e consagrados artistas e celebridades, sem aliviar para ninguém, nem mesmo para a chamada sabedoria popular, baseada em crendices bem intencionadas, mas, na verdade, apenas ingenuidade de gente ignorante.


Abaixo vou listar alguns exemplos de sua verve implacável:

"A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas"

"A Democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos"

"A monogamia mata a paixão - e a paixão é o mais poderoso inimigo da suposta civilização"

"O amor é o triunfo da imaginação sobre a inteligência"

"O adultério é a aplicação dos princípios democráticos ao amor"

"Pelo menos numa coisa homens e mulheres concordam - nenhum deles confia em mulheres"

"Pode ser pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano."

"A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável"

"Todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriu o direito de embolsar uma parte dos ganhos dos seus semelhantes"

"Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive"


Em 1948, Mencken escreveu sua ultima coluna no Sun. A polícia havia prendido uns rapazes - negros e brancos integracionistas - que estavam jogando tênis numa quadra pública de Baltimore. Mencken escreveu "Já é tempo de que as relíquias da Ku Klux Kan, agora sob os auspícios oficiais, sejam varridos deste estado".


Como se vê, Mencken continua atualíssimo.

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